Saltar para o conteúdo
Tiba
Catálogo · 30 fichas

Palavras

Trinta palavras do português europeu de hoje, com étimo, região e língua de origem, primeira atestação conhecida (quando existe), e o que cada uma queria dizer então e o que quer dizer agora. Onde a fonte não está confirmada com confiança, o texto diz [[VERIFICAR: ...]] em vez de apresentar um facto como certo. Estas mesmas fichas estão também no mapa interativo.

Angola

Bué

Do kimbundu -bue, «muito, em grande número»
AngolaQuotidianoSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data da primeira atestação escrita em português europeu]]

Sentido original

Muito, em grande quantidade.

Sentido hoje

Intensificador de calão jovem («é bué fixe», «bué gente»), difundido a partir do contacto com o português de Angola através dos retornados e, mais tarde, da diáspora e da música.

Cota

Do umbundu/kimbundu kota, «irmão mais velho, pessoa de respeito»
AngolaQuotidianoSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Pessoa mais velha, figura de autoridade familiar.

Sentido hoje

Em português de Angola, forma comum para «pai» ou para um homem mais velho; em Portugal, uso mais restrito, ligado ao contacto com a comunidade angolana.

Quitanda

Do kimbundu kitanda, «tabuleiro ou banca de venda»
AngolaComidaSéc. XIX
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data da primeira atestação escrita]]

Sentido original

Banca ou tabuleiro onde se vendiam víveres.

Sentido hoje

Pequeno mercado ou mercearia de bairro; sentido difundido sobretudo via português do Brasil, onde é de uso corrente. Em Portugal aparece hoje principalmente em contexto literário ou lusófono.

Cubata

Do kimbundu kubata, «casa, habitação»
AngolaCasaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Casa, habitação tradicional.

Sentido hoje

Em Angola, casa ou habitação em geral. Em Portugal sobrevive sobretudo em relatos coloniais e pós-coloniais, por vezes com a conotação depreciativa de habitação precária — um desvio de sentido que vale a pena assinalar com cuidado.

Muamba

Do kimbundu mu'amba
AngolaComidaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Guisado cozinhado em molho de óleo de palma.

Sentido hoje

Sobretudo na expressão «muamba de galinha», um dos pratos mais identificados com a cozinha angolana, hoje conhecido em Portugal via restauração e comunidade angolana. Em português do Brasil, a mesma forma ganhou também o sentido de «contrabando» — [[VERIFICAR: ligação exacta entre os dois sentidos]].

Jindungo

[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
AngolaComidaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Piripíri, malagueta.

Sentido hoje

Piripíri angolano usado em molhos e conservas; a palavra e o próprio condimento chegaram a Portugal com a diáspora angolana e são hoje reconhecíveis em mercearias e restaurantes angolanos nas grandes cidades.

Zumbi

Do kimbundu nzumbi, «espírito, alma de um morto»
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XVII–XVIII
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação em português]]

Sentido original

Espírito de um morto, entidade sobrenatural.

Sentido hoje

Em português do Brasil ficou associada à figura histórica de Zumbi dos Palmares e, por extensão semântica mais recente, ao morto-vivo dos filmes de terror — sentido que viajou depois para o francês e o inglês (zombie) antes de regressar a Portugal como palavra de cultura popular global. [[VERIFICAR: detalhe da rota exacta de transmissão até ao inglês]]

Bunda

Do kimbundu mbunda, «nádegas»
Angola → BrasilCorpoSéc. XIX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Nádegas.

Sentido hoje

Mantém o mesmo sentido; entrou no português europeu sobretudo por influência da música e da televisão brasileiras a partir do final do século XX, e hoje é de uso informal corrente em Portugal.

Moleque

Do kimbundu mu'leke, «rapaz, criança»
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XVII–XVIII
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Rapaz jovem; no Brasil colonial, também criança em condição de escravatura — uma origem que convém não branquear.

Sentido hoje

Em português do Brasil, «criança» ou «rapaz» em tom informal, por vezes afetuoso; em Portugal o uso é raro e tende a soar a brasileirismo, apesar de a palavra ter, na origem, uma história bem mais dura do que a leveza que hoje sugere.

Caçula

Do kimbundu kusula, «o último a nascer»
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XVII–XVIII
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

O filho mais novo de uma família.

Sentido hoje

De uso corrente em português do Brasil; em Portugal o termo tradicional é «benjamim», e «caçula» não se fixou no uso europeu comum.

Cafuné

[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
Angola → BrasilCorpoSéc. XIX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

[[VERIFICAR]] — os dicionários brasileiros consultados apontam para origem africana provável, sem consenso fechado sobre a língua precisa.

Sentido hoje

Em português do Brasil, o gesto afetuoso de passar os dedos pelo cabelo de alguém — conceito para o qual o português europeu não tem palavra própria; continua a não ser de uso corrente em Portugal.

Samba

Ligada por vários investigadores ao termo bantu semba
Angola → BrasilMúsicaSéc. XIX
Primeira atestação
[[VERIFICAR: primeira atestação escrita com o sentido musical]]

Sentido original

Gesto de dança de raiz bantu, associado ao toque de umbigos («umbigada»). [[VERIFICAR: percurso exacto da mudança fonética e atribuição precisa a uma língua bantu específica]]

Sentido hoje

Género musical e de dança identitário do Brasil, hoje conhecido globalmente, incluindo em Portugal, onde poucos falantes param para pensar na sua origem africana.

Fubá

Do kimbundu fuba, «farinha»
Angola → BrasilComidaSéc. XVII–XVIII
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Farinha, em sentido genérico.

Sentido hoje

Em português do Brasil, farinha de milho especificamente, usada em pratos como o angu e em bolos tradicionais; o termo não se fixou em Portugal, onde se diz «farinha de milho».

Xingar

[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
Angola → BrasilQuotidianoSéc. XIX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

[[VERIFICAR]]

Sentido hoje

Em português do Brasil, insultar ou praguejar contra alguém; bem conhecido em Portugal via conteúdos brasileiros, mas não substitui, no uso espontâneo, os verbos do português europeu («insultar», «praguejar»).

Moçambique

Capulana

[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem, provavelmente do sul de Moçambique]]
MoçambiqueCorpoSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Peça de pano estampado, usada como saia envolvente, embrulho ou pano-de-costas.

Sentido hoje

O mesmo tecido estampado, hoje também usado por criadores de moda em Portugal como referência têxtil moçambicana — um dos poucos casos desta lista em que o próprio objeto, e não só a palavra, circula fisicamente entre os dois países.

Xitique

[[VERIFICAR: língua de origem, associada a línguas do grupo tsonga/ronga]]
MoçambiqueDinheiroSéc. XXI
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Sistema informal de poupança rotativa entre um grupo de pessoas de confiança.

Sentido hoje

O mesmo sistema, hoje descrito com esta palavra também em reportagens portuguesas sobre inclusão financeira e economia informal — um dos casos mais recentes desta lista, ligado à visibilidade crescente da diáspora moçambicana em Portugal no século XXI.

Kizomba

Do kimbundu kizomba, «festa, celebração» (origem angolana; incluída aqui por ser hoje um dos géneros musicais lusófonos mais conhecidos em Portugal, com forte presença também em Moçambique)
AngolaMúsicaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta de surgimento do género musical e da palavra em português]]

Sentido original

Festa, celebração coletiva.

Sentido hoje

Género musical e de dança de par surgido em Angola nos anos 1980, hoje ensinado e dançado em escolas de dança por todo Portugal — provavelmente a palavra desta lista com maior visibilidade pública fora de contexto linguístico.

Semba

Do kimbundu (n)semba, associado ao gesto de embate de umbigos («umbigada»)
AngolaMúsicaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Toque de umbigos, gesto de dança ritual.

Sentido hoje

Género musical angolano, antecessor direto da kizomba; em Portugal é sobretudo conhecido por quem segue música e dança angolanas, menos generalizado do que «kizomba».

Zungueira

Do verbo kimbundu kuzunga, «andar, vaguear, percorrer»
AngolaDinheiroSéc. XXI
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Ato de percorrer as ruas a vender.

Sentido hoje

Vendedora ambulante, figura central da economia informal de Luanda; ganhou visibilidade em Portugal sobretudo via reportagens e documentários sobre Angola já no século XXI.

Candonga

[[VERIFICAR: língua bantu exacta de origem]]
AngolaDinheiroSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Comércio informal, revenda não regulada.

Sentido hoje

Mercado ou negócio informal, muitas vezes de bens escassos ou revendidos a preço mais alto; usa-se em Angola desde pelo menos o período pós-independência, e chega a Portugal sobretudo por via jornalística e académica.

As últimas quatro fichas — Kizomba, Semba, Zungueira e Candonga — são de origem angolana; ficam aqui, a seguir a Moçambique, apenas por proximidade de assunto no percurso de leitura. A atribuição correta de cada uma está sempre no selo de origem.

Cabo Verde

Cachupa

[[VERIFICAR: etimologia exacta — provável formação crioula cabo-verdiana]]
Cabo VerdeComidaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Guisado de milho, feijão e carne ou peixe, prato nacional de Cabo Verde.

Sentido hoje

O mesmo prato, hoje bem presente em restaurantes cabo-verdianos em Lisboa e no Grande Porto — uma das comunidades lusófonas com maior enraizamento histórico em Portugal.

Morna

[[VERIFICAR: etimologia disputada — associada tanto ao português «morno» como, por alguns autores, ao inglês mourning, «luto»; nenhuma das duas hipóteses reúne consenso definitivo entre os investigadores consultados]]
Cabo VerdeMúsicaSéc. XIX
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data e autoria da primeira referência escrita]]

Sentido original

[[VERIFICAR: depende da etimologia que vier a confirmar-se]]

Sentido hoje

Género musical cabo-verdiano de tom melancólico, internacionalmente associado à voz de Cesária Évora; em Portugal é hoje um dos géneros lusófonos mais conhecidos do grande público, independentemente de a etimologia da própria palavra continuar por resolver.

Batuque

Provável formação em português a partir do verbo «bater»
Cabo VerdeMúsicaAté ao séc. XVI
Primeira atestação
[[VERIFICAR: cronologia exacta da primeira atestação]]

Sentido original

Dança e percussão de raiz africana, tal como descrita — de fora — por cronistas e observadores europeus desde os primeiros contactos.

Sentido hoje

Em Cabo Verde, género musical e de dança com identidade própria; em português geral, o termo generalizou-se para qualquer música ou dança de percussão intensa. Um caso interessante: nasceu em português para nomear algo alheio à própria língua, não é um empréstimo direto de uma língua africana.

Funaná

[[VERIFICAR: etimologia exacta em crioulo cabo-verdiano]]
Cabo VerdeMúsicaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Género musical e de dança do interior da ilha de Santiago, tocado tradicionalmente com acordeão e ferrinho.

Sentido hoje

O mesmo género, conhecido em Portugal sobretudo por quem segue música cabo-verdiana ou frequenta festas da comunidade — menos generalizado do que «morna» ou «kizomba».

Guiné-Bissau

Banana

De uma língua da África Ocidental, provavelmente wolof ou próxima
Costa da Guiné (África Ocidental)ComidaAté ao séc. XVI
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita em português]]
Nota sobre a origem
Muito provavelmente do wolof ou de uma língua próxima falada na região que os navegadores portugueses do século XV designavam genericamente por «Guiné» — um território histórico bem mais vasto do que o da atual Guiné-Bissau. [[VERIFICAR: língua exacta de origem entre as hipóteses propostas pelos etimologistas]]

Sentido original

O fruto da bananeira, tal como nomeado pelos povos da região de contacto.

Sentido hoje

Exatamente o mesmo. Adotada pelo português nos primeiros contactos com a costa ocidental africana, espalhou-se depois para a generalidade das línguas europeias — é provavelmente a palavra de origem africana mais bem escondida à vista de toda a gente no português europeu, e uma das mais antigas desta lista.

São Tomé e Príncipe

Calulu

[[VERIFICAR: língua de origem — o prato e a palavra são também usados em Angola, o que torna incerta a atribuição a uma única origem]]
São Tomé e PríncipeComidaSéc. XX
Primeira atestação
[[VERIFICAR]]

Sentido original

Guisado de folhas — de abóbora ou mandioca —, peixe seco e quiabo.

Sentido hoje

Prato central da cozinha de São Tomé e Príncipe, com uso muito restrito em Portugal continental fora dos círculos da diáspora são-tomense — uma das comunidades lusófonas mais pequenas e menos documentadas neste arquivo.

Brasil

O Brasil aparece nesta lista de duas maneiras diferentes: como ponto de passagem de palavras africanas que só se fixaram na língua depois de séculos de contacto no Brasil colonial (assinaladas acima com o selo «Angola → Brasil»), e como fonte de palavras genuinamente suas, de raiz indígena tupi — como esta:

Pipoca

Do tupi pira-oca ou pi'roka, «pele que estoura»
Brasil (tupi)ComidaSéc. XVII–XVIII
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita em português]]

Sentido original

O grão de milho que rebenta com o calor.

Sentido hoje

Exatamente o mesmo — palavra de origem indígena brasileira, não africana, incluída aqui para lembrar que o Brasil deu também ao português palavras genuinamente suas, hoje tão comuns em Portugal como em qualquer país lusófono.

Goa

Manga

Do malaiala māṅṅa, através do tâmil māṅkāy
Goa (Índia)ComidaAté ao séc. XVI
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita]]

Sentido original

O fruto da mangueira.

Sentido hoje

Exatamente o mesmo. Um dos casos mais bem documentados desta lista: o português não só importou a palavra do contacto com a Índia a partir do século XVI como a exportou depois para outras línguas europeias — o inglês mango vem, por esta via, do português.

Canja

Do concani/malaiala kanji, «água de arroz, papa de arroz»
Goa (Índia)ComidaAté ao séc. XVI
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita]]

Sentido original

Papa ou caldo ralo de arroz.

Sentido hoje

Sopa de galinha com arroz, hoje um dos pratos mais tradicionais da cozinha portuguesa. A expressão «ser canja» para «coisa fácil» é um desenvolvimento de sentido posterior, já dentro do próprio português. [[VERIFICAR: cronologia exacta da mudança de «papa de arroz» para «sopa de galinha»]]

Macau

Chá

Do chinês chá (茶), pronúncia cantonense
MacauComidaAté ao séc. XVI
Primeira atestação
[[VERIFICAR: data exacta da primeira atestação escrita em português]]

Sentido original

A planta e a bebida preparada com as suas folhas.

Sentido hoje

Exatamente o mesmo — uma das palavras mais antigas e mais estáveis desta lista, adotada no contacto comercial português em Macau e no sul da China, e das que menos parecem «estrangeiras» a um falante de português apesar de a sua origem chinesa ser bem documentada.

Quer ver o percurso de cada uma no mapa?

O mapa das palavras mostra estas mesmas trinta fichas sobre um planisfério, filtrável por origem, século e campo semântico.

Ver o mapa