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Tiba
Contraponto

Falsos empréstimos

A etimologia popular é traiçoeira: uma palavra pode «soar» africana, ou circular associada a uma origem africana no imaginário comum, sem que os dicionários etimológicos confirmem essa história. Esta página junta alguns casos — não para negar a riqueza real do vocabulário de origem africana em português, mas para mostrar o mesmo rigor que se pede às palavras que a confirmam.

Fixe

A ideia popular: por soar diferente do resto do vocabulário comum e por ser tão associada ao calão informal, «fixe» é por vezes apontada, de ouvido, como um possível africanismo ou brasileirismo.

O que os dicionários dizem: a generalidade das fontes consultadas não confirma uma origem africana para «fixe». As hipóteses mais discutidas prendem-se antes com o adjetivo português «fixo» (algo «fixe» seria, na origem, algo firme, seguro, bem assente), sem que exista consenso fechado sobre o percurso exato até ao sentido atual de aprovação. [[VERIFICAR: hipótese etimológica exata e fonte de referência]]

Fica de fora deste arquivo por não haver, nas fontes consultadas, uma ligação africana defensável — apesar de a intuição popular insistir nela.

Mocho

A ideia popular: a sonoridade da palavra, e talvez a proximidade com outras palavras desta lista, leva por vezes a presumir uma origem africana — tanto para a ave («mocho», a coruja pequena) como para o banco sem encosto do mesmo nome.

O que os dicionários dizem: «mocho» vem do latim mutilus, «mutilado, sem pontas» — a mesma raiz de onde vem, por exemplo, a ideia de um animal sem chifres. O sentido estendeu-se depois a objetos «sem ponta» ou incompletos, como um banco sem encosto. Não há aqui nenhuma origem africana: é vocabulário latino comum ao português desde muito antes do contacto colonial.

Zangar / zanga

A ideia popular: por ser uma palavra emotiva e informal, de sonoridade pouco latina à primeira vista, «zangar» é por vezes atribuída, sem grande certeza, a uma origem africana.

O que os dicionários dizem: as fontes de referência consultadas para este arquivo consideram a etimologia de «zangar» obscura ou incerta, sem confirmar uma origem africana nem oferecer uma alternativa definitiva e consensual. [[VERIFICAR: hipóteses etimológicas propostas na bibliografia especializada]]

Fica aqui, e não em Palavras, precisamente porque a incerteza pesa contra a hipótese africana tanto quanto contra qualquer outra — o caso mais honesto de admitir é «não sabemos», não «sabemos que é africana».

Cachaça

A ideia popular: por ser tão associada ao Brasil colonial e à cana-de-açúcar, «cachaça» é por vezes presumida como palavra de origem indígena ou africana.

O que os dicionários dizem: a etimologia de «cachaça» é tratada como incerta ou disputada nas fontes consultadas, com hipóteses que apontam antes para o português ou o castelhano do que para uma língua africana ou indígena brasileira — sem que nenhuma reúna consenso fechado. [[VERIFICAR: hipóteses etimológicas propostas e respetiva fonte]]

Um lembrete de que nem tudo o que nasceu no Brasil colonial tem, por defeito, uma etimologia africana ou indígena — por vezes é apenas português antigo que se afastou do seu sentido original.

Isto não diminui as palavras que são, de facto, de origem africana. Pelo contrário: mostra que a atribuição de uma etimologia a uma língua africana concreta é, nesta lista, um exercício de rigor, e não um chavão automático aplicado a qualquer palavra de sonoridade menos latina. Veja o critério explicado em Fontes.